>O dedo mindinho do Newton

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Presa no trânsito de SP, sem ter o que fazer, reparei no meu dedo mindinho. Comecei a analisá-lo e notei que nunca tinha percebido o seu formato. Afastei dos demais dedos e eis que me pareceu uma parte desconhecida de mim. Algo que sempre esteve aqui, faz parte do conjunto, mas nunca foi percebido como único.
dali

Como ando tropeçando no liso há algum tempo, dessa verdadeira viagem na maionese, cogitei que talvez, minhas ações ou pensamentos, opiniões ou atitudes, certamente as mesmas, há muito tempo, podem ser tão estranhas para mim, como meu abandonado dedo mindinho, se eu for analisá-las, assim, fria e isoladamente.

Como qualquer ser humano, estou em busca do auto conhecimento, mas como qualquer um de nós, não gosto nadinha de concluir, que tenho mais defeitos do que virtudes. Como é dificil admitir que estamos errados. Então, inconscientemente e para nos auto-preservar, tratamos logo de culpar alguém ou a situação pela maneira como agimos ou pela dor que nos persegue.

negar
Aliás, o inconsciente é nossa parte mais atraente e poderosa. É lá que estão escondidos as verdadeiras aspirações da nossa vida. Há muito tempo é foco de estudos e teorias, berço da fé e do misticismo. Segundo Jung, quando o mundo externo entra em colapso, nos voltamos para dentro de nós mesmos em busca de algo que nos dê segurança. (…) Muitos ainda procuram fora de si mesmos; uns acreditam na ilusão da vitória e do poder; outros, em tratados e decretos; outros, ainda, na destruição da ordem vigente. Mas são poucos os que buscam dentro de si, poucos os que se perguntam se não seriam mais úteis à sociedade humana se cada qual começasse por si, se não seria melhor, em vez de exigir dos outros, pôr à prova primeiro em sua própria pessoa, em seu foro interior, a suspensão da ordem vigente, as leis e vitórias que apregoam em praça pública. É indispensável que em cada indivíduo se produza um desmoronamento, uma divisão interior, que se dissolva o que existe e se faça uma renovação renovação, mas sem impô-la ao próximo sob o manto farisaico do amor cristão ou do senso da responsabilidade social — ou o que quer que seja usado para disfarçar as necessidades pessoais e inconscientes de poder. O autoconhecimento de cada indivíduo, a volta do ser humano às suas origens, ao seu próprio ser e à sua verdade individual e social, eis o começo da cura da cegueira que domina o mundo de hoje.(…) 
O fato é que eu achava que tinha certeza. Agora já não sei mais. Se algo externo, exposto e à altura dos meus olhos, como meu pequeno dedo, é negligenciado pela minha observação, sem sombra de dúvida, muitos sentimentos e atitudes, que podia crer serem corretas ou justas, podem na verdade, serem ineficientes para a busca do meu auto conhecimento e da felicidade geral da nação… E como descobrir tudo isso? Tirando os olhos do mindinho e tentando ouvir o que os outros pensam sobre nós.  Se você perguntar, compreensivelmente mentirão (ou não!). Mas, se observarmos com um pouco mais de atenção, podemos constatar que ser egoísta é inerente ao ser. Não adianta negar nossa origem animal, que não está nem ai com o sofrimento alheio. Somos bichos domesticados pela sociedade e pelos valores impostos por ela. Negar é a primeira lição. A segunda é  culpar o outro. 
culpar
O egoísmo enraizado no nosso inconsciente nos impede de admitir, principalmente publicamente, que talvez a culpa seja nossa, pelos infortúnios da nossa própria vida. Embora, seja provado cientificamente pelas leis da física, que  quando um não quer, dois não brigam, ainda assim negamos nossa participação.  “Terceira Lei de Newton: a força é a expressão física para a interação entre dois entes físicos [ou entre duas partes de um mesmo ente], definindo então a direção, o sentido e a igualdade dos módulos das forças de um par ação-reação)” A Terceira Lei pode ser assim enunciada: se um corpo “A” aplicar uma força sobre um corpo “B”, este último aplicará sobre “A” outra força da mesma intensidade e mesma direção, mas no sentido contrário.”
Ou seja, se você deu, irá receber na mesma proporção. É ação e reação. Equação tão simples, que reprova e deixa muita gente de recuperação na escola e na vida!


Fonte: Essa vida louca, Wikipedia  e “Psicologia do Inconsciente” – Carl Gustav Jung
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>Sobre a brevidade da vida

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“A vida é breve, longa, a arte.” Hipócrates

Não é curto o tempo que temos, mas dele muito perdemos. A vida é suficientemente longa e com generosidade nos foi dada, para a realização das maiores coisas, se a empregamos bem. Mas, quando ela se esvai no luxo e na indiferença, quando não a empregamos em nada de bom, então, finalmente constrangidos pela fatalidade, sentimos que ela já passou por nós sem que tivéssemos percebido. O fato é o seguinte: não recebemos uma vida breve, mas a fazemos, nem somos dela carentes, mas esbanjadores. Tal como abundantes e régios recursos, quando caem nas mãos de um mau senhor, dissipam-se num momento, enquanto que, por pequenos que sejam, se são confiados a um bom guarda, crescem pelo uso, assim também nossa vida se estende por muito tempo, para aquele que sabe dela bem dispor. (…)

viver
C.Albert / Aerial Dreams

Por que nos queixamos da Natureza? Ela mostrou-se benevolente: a vida, se souberes utilizá-la, é longa. Mas uma avareza insaciável apossa-se de, um de outro, uma laboriosa dedicação a atividades inúteis, um embriaga-se de vinho, outro entorpece-se na inatividade; a este, uma ambição sempre dependente das opiniões alheias o esgota, um incontido desejo de comerciar leva aquele a percorrer todas as terras e todos os mares, na esperança de lucro; a paixão pelos assuntos militares atormenta alguns, sempre preocupados com perigos alheios ou inquietos com seus próprios; há os que, por uma servidão voluntária, se desgastam numa ingrata solicitude a seus superiores; a busca da beleza de um outro ou o cuidado com sua própria ocupa a muitos; a maioria, que não persegue nenhum objetivo fixo, é atirada a novos desígnios por uma vaga e inconstante leviandade, desgostando-se com isso; alguns não definiram para onde dirigir sua vida, e o destino surpreende-os esgotados e bocejantes, de tal forma que não duvido ser verdadeiro o que disse, à maneira de oráculo, o maior dos poetas: “Pequena é a parte da vida que vivemos.” Pois todo o restante não é vida, mas tempo. Os vícios atacam-nos, e rodeiam-nos de todos os lados e não permitem que nos reergamos, nem que os olhos se voltem para discernir a verdade, mantendo-os submersos, pregados às paixões.(…)


(…)Vemos que chegaste ao fim da vida, contas já cem ou mais anos. Vamos! Faz o cômputo de tua existência. Calcula quanto deste tempo credor, amante, superior ou cliente, te subtraiu e quanto ainda as querelas conjugais, as reprimendas aos escravos, as atarefadas perambulações pela cidade; acrescenta as doenças que nós próprios nos causamos e também todo o tempo perdido: verás que tens menos anos de vida do que contas. (…)Os ocupados não tem tempo para refletir sobre si, daí o estranhamento de si mesmos. O homem, no entanto, pode ultrapassar sua condição meramente corporal e alcançar o conhecimento de si como alma e razão.(…)
morrer
Steve Argy

(…)Finalmente, todos concordam que um homem ocupado não pode fazer nada bem: não pode se dedicar à eloqüência, nem aos estudos liberais, uma vez que seu espírito, ocupado em coisas diversas, não se aprofunda em nada, mas, pelo contrário, tudo rejeita, pensando que tudo lhe é imposto. Nada é menos próprio do homem ocupado do que viver, pois não há outra coisa que seja mais difícil de aprender. Professores das outras artes, há vários e por toda parte, dentre algumas dessas, vemos crianças terem atingido tanta maestria, que chegam até a ensiná-las. Deve-se aprender a viver por toda a vida, e, por mais que tu talvez te espantes, a vida toda é um aprender a morrer.(…)

aprender
C.Albert / Aerial Dreams

(…)Dentre todos os homens, somente são ociosos os que estão disponíveis para a sabedoria; eles são os únicos a viver, pois, não apenas administram bem sua vida, mas acrescentam-lhe toda a eternidade. Todos os anos que se passaram antes deles são somados aos seus. (…)
 (…)É extremamente breve e agitada a vida dos que esquecem o passado, negligenciam o presente e receiam o futuro; quando chegam ao termo de suas existências, os pobres coitados compreendem tardiamente que (2) estiveram por longo tempo ocupados em nada fazer.(…)
 
espirito
C.Albert / Aerial Dreams

(…)Todos os maiores bens estão cheios de ansiedade, e as maiores fortunas são as menos dignas de crédito; para alimentar a felicidade, faz-se necessária uma outra felicidade, e em paga a uma promessa realizada, outras promessas devem ser feitas. Pois tudo o que nos sucede por obra do acaso é instável, e quanto mais alto nos elevamos, tanto mais estamos sujeitos a cair. É claro que o que está condenado a cair não agrada a ninguém. Portanto é necessariamente a mais miserável e não apenas a mais breve, a vida dos que obtêm com grande esforço algo que conservam com um esforço ainda maior. Em meio a grandes labutas, conseguem o que desejam e ansiosos conservam o que conseguiram; entretanto não têm consciência de que o tempo nunca mais há de voltar. (…)

Sobre a brevidade da vida – Sêneca

Leitura mais que recomendada, Sêneca foi um dos mais célebres escritores e intelectuais do Império Romano. Seguidor do estoicismo, que aconselha a indiferença  em relação a tudo que é externo ao ser, devendo assim manter a serenidade perante as tragédias e coisas boas. Para Sêneca, o destino é uma realidade. O homem pode apenas aceitá-lo ou rejeitá-lo. Se o aceitar de livre vontade, goza de liberdade. 

destino
Christel Arnod

Sobre a Brevidade da vida são cartas dirigidas a Paulino (cuja identidade é controversa), nas quais o sábio discorre sobre a natureza finita da vida humana. São desenvolvidos temas como aprendizagem, amizade, livros e a morte, e, no correr das páginas, vão sendo apresentadas maneiras de prolongar a vida e livrá-la de mil futilidades que a perturbam sem, no entanto, enriquecê-la. Escritas há quase dois mil anos, estas cartas compõem uma leitura inspiradora para todos os homens, a quem ajudam a avaliar o que é uma vida plenamente vivida. 

>Mudar é inevitável

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Ao frequentar palestras no Centro, eu sempre me encontrava com uma velha amiga. Nas semanas que passaram, não mais a vi. Encontrei com ela, casualmente, na rua e perguntei o motivo da sua ausência nas palestras. Ela me disse que ficou desanimada, pois sabia que os palestrantes não praticavam em suas vidas o que eles pregavam. Alguns pregavam a paz, mas eram rudes com seus familiares. Outros pregavam a caridade, mas eram mesquinhos e egoístas. Uns pregavam o respeito, mas não respeitavam nem a si mesmos. Outros pregavam o otimismo, mas lamentavam sua existência.
Por um instante, quase concordei com ela. Mas, perguntei “cá com meus botões”, se um bom conselho deixa de ser bom, se quem o oferece não é capaz de segui-lo? Numa distorção da famosa frase: “Faça o que eu digo, mas nem eu faço o que falo.”
Todos nós sabemos o caminho certo para o bem estar. Sabemos o que não comer, quando estamos de dieta, que muito sal é prejudicial à saúde, assim como o cigarro e a bebida. Sabemos que gritar nos trará gritos. Que respeito gera respeito e gentileza, gera gentileza. Então, se sabemos de tudo isso por quê erramos?
Li uma frase, mais ou menos assim, cujo autor não me lembro o nome: “O que eu não sei não  me impede de alcançar meus objetivos.  É justamente o que sei, que me atrapalha.”
Acho que justamente por saber que mudar é inevitável, vamos adiando até que a vida se encarregue de nos obrigar a ter disciplina,  auto-controle,  paciência e bom senso. Características que dependem uma da outra, e todas juntas  promovem a reforma íntima necessária para evoluirmos.
Falar é sempre muito mais fácil que agir, mesmo que saibamos o caminho, nem sempre estamos aptos a segui-lo. 
Passei a observar os palestrantes e a mim mesma com mais atenção. A conclusão que cheguei, foi que todos os discursos são frutos da intenção de inspirar o próximo a seguir rumo à evolução, porém intima e verdadeiramente, são frutos da necessidade de inspirar a nós mesmos.

“(…)as pessoas gostam de dar o que mais necessitam. Considero isto a mais profunda generosidade.” Oscar Wilde

O tormento do tempo

Quando eu era criança, o tempo era um tormento. Ele custava a passar. O intervalo entre a noite e o dia, que me separava das brincadeiras na rua, parecia levar um século para passar. Passei várias noites, olhando para o relógio, que ao invés de minutos, contava em dias.
tempo
Claire Pacheco

AH! OS RELÓGIOS

Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios…

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida – a verdadeira –
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém – ao voltar a si da vida –
acaso lhes indaga que horas são…
Mario Quintana – A Cor do Invisível

Agora, porém, esse mesmo tempo anda com pressa. O que preciso fazer não cabem nas breves horas de um dia. Dizem que quem não sabe aproveitar o seu tempo, são os primeiros a queixar-se da sua brevidade. Definitivamente, eu não sei aproveitar o meu. São tantos afazeres, tantas cobranças, tantos planos, que é impossível organizá-los. Não somente por falta de planejamento, mas porque passei a me incomodar com a passagem das horas, que dão o desespero de uma contagem regressiva. Não há tempo que baste para fazer o que nos aborrece!
horas
Claire Pacheco
“A vaidade faz-nos olhar para o tempo, que passou, com indiferença, porque já nele fica sem ação; faz-nos ver o presente com desprezo, porque nunca vive satisfeita; e faz-nos contemplar o futuro com esperança, porque sempre se funda no que há de vir; e assim só estimamos o que já não temos; fazemos pouco caso do que possuímos; e cuidamos no que não sabemos se teremos.”
Matias Aires, in ‘Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens e Carta Sobre a Fortuna’
segundos
Claire Pacheco
Na infância, nosso corpo e nossa mente passam o tempo todo fervilhando com tantas descobertas. As horas passam depressa, mas os anos parecem décadas. Temos tantas lembranças, que não condizem com os breves anos da infância. Cada vez que refletimos sobre as experiências de criança, novas descobertas se apresentam. Cada época da nossa vida, parece ser proporcional às reflexões, que dela temos. Na maturidade, a velocidade das descobertas é substituída pela morosidade das lembranças, onde as horas parecem dias, mas os anos passam como semanas.
O despertador desperta,
acorda com sono e medo;
por que a noite é tão curta
e fica tarde tão cedo?
Millôr Fernandes, in “Pif-Paf”
minutos
Claire Pacheco
Quando estamos engajados em produzir algo, passamos a perceber o tempo, tentando em vão superá-lo. Quando vivemos uma vida medíocre e tediosa, sem planos ou realizações, o correr das horas não incomoda. Quem não valoriza o breve tempo da vida, não se importa em gastá-lo com futilidades. O tempo de cada um de nós é único. Embora, todos compartilhem da mesma medida de tempo, ele passará de maneira diferente para cada ser.
vida
Claire Pacheco
Frequentemente, nos queixamos do presente, o passado se tornou um saudoso instante e olhamos para o futuro com esperança de algo distante. O fato é que temos o tempo suficiente para realizar aquilo que fomos destinados a fazer. Como disse Oscar Wilde : “O objetivo da vida é o desenvolvimento próprio, a total percepção da própria natureza, é para isso que cada um de nós veio ao mundo.” Portanto, será inteiramente feliz e cumprirá a sua missão, aquele que utilizar o tempo para aprimorar a si mesmo.
filosofia
Claire Pacheco
“Agimos sempre no sentido do destino. As duas coisas formam uma só.
Quem se engana é porque ainda não compreende o seu destino. Quer dizer, não compreende qual a resultante de todo o seu passado – o qual lhe indica o futuro. Mas quer o compreenda ou não, indica-lhe à mesma. Cada vida é aquilo que devia ser.” Cesare Pavese, in ‘O Ofício de Viver’

Somos todos iguais, somos tão diferentes

Comecei a ler o livroAforismos para a Sabedoria de Vida” ,do filósofo  Arthur Schopenhauer, que queimou os miolos,  analisando nossas similaridades e o quê, de fato, nos difere. 
individual
Varial
 

Qualquer coisa que eu possa escrever sobre esse assunto, soará como plágio desse livro espetacular, pois sua linguagem é tão próxima dos nossos pensamentos, que temos a impressão de dividir com ele a autoria do livro. Então, escolhi alguns trechos, numa coletânea desses ótimos aforismos. Para quem gosta de questionar a própria existência e os “por quês” das topadas da vida,  eu recomendo esse é excelente livro.
sabedoria
Varial

 “(…)os sábios de todos os tempos sempre disseram o mesmo, e os tolos – isto é, a grande maioria de todos os tempos – sempre fizeram o mesmo, ou seja, o oposto; e sempre será assim. Pois, como diz Voltaire, partiremos deste mundo tão tolos e maus quanto o encontramos na nossa chegada.(…) 

vida
Varial

“(…)O mundo em que cada qual vive depende principalmente de sua própria interpretação desse e, assim, mostra-se diferentemente a homens diferentes; para um é pobre, insípido e monótono, para outro é rico, interessante e importante.(…)

realidade
Varial

 (…)Assim, quando a metade objetiva é exatamente a mesma, mas a subjetiva é diferente, a realidade presente é tão distinta aos olhos de cada indivíduo (…)Em palavras claras, todos estão confinados à sua própria consciência assim como estão confinados à sua própria pele; logo, a ajuda externa não é de grande valia.(…)

consciencia
Varial

 (…)A metade objetiva da realidade presente está nas mãos do destino, que toma formas diversas em cada caso; a metade subjetiva somos nós próprios, que essencialmente permanece sempre a mesma.(…)

prazer
Varial


(…)os limites de seus poderes mentais fixaram em definitivo sua capacidade para prazeres de natureza mais elevada.(…)Se tais poderes forem pequenos, nenhum esforço exterior, nada que seus companheiros ou que seu destino fizer será suficiente para elevá-lo além do grau habitual de felicidade humana e prazer meio-animais. O que lhe resta são os prazeres dos sentidos, uma confortável e alegre vida familiar, má companhia e passatempos vulgares. Mesmo a educação, no todo, não pode oferecer muito, se é que oferece algo, para ampliar seu horizonte. Pois os prazeres mais elevados, variados e duradouros são os do espírito, independentemente do quanto nos enganamos em relação a isso na juventude; mas tais prazeres dependem principalmente de nossos poderes intelectuais inatos. É óbvio, portanto, o quanto nossa felicidade depende daquilo que somos, de nossa individualidade, embora normalmente levemos em consideração apenas nossa sorte ou destino, apenas aquilo que possuímos ou representamos. Nossa sorte, nesse sentido, pode melhorar; mas, se formos interiormente ricos, não pediremos muito dela. Por outro lado, um tolo permanece um tolo, um estúpido permanece um estúpido, até o fim de sua vida, mesmo se rodeado por houris no paraíso.(…)

filosofia
Varial


(…)aquilo que um homem é por si mesmo, aquilo que o acompanha em sua solidão e aquilo que ninguém pode proporcionar ou subtrair, obviamente, lhe é mais essencial que tudo o que possui, ou mesmo ao que pode ser aos olhos dos outros. Um homem de intelecto, em completa solidão, encontra um excelente entretenimento em seus próprios pensamentos e imaginação, enquanto a contínua diversidade de festas, peças, excursões e diversões é incapaz de proteger um tolo das torturas do tédio. Um indivíduo bom, moderado, brando pode ser feliz em circunstâncias adversas, enquanto outro, ambicioso, invejoso e malicioso, mesmo sendo o mais rico do mundo, sente-se miserável.(…)

feliz
Varial


(…)Aquilo que um homem tem em si próprio é, portanto, o elemento mais essencial à sua felicidade. Devido a isso, em regra, a maior parte daqueles que estão à parte da luta contra a penúria no fundo sentem-se tão infelizes quanto os que se encontram engajados nesta. O vazio de suas vidas interiores, a obtusidade de suas consciências, a pobreza de suas mentes os levam à companhia de outros homens como a si mesmos(…)

sabedoria
Varial



(…)podemos suportar mais facilmente um infortúnio que nos atinge externamente que aquele que criamos para nós mesmos, pois o destino pode mudar, mas nunca nossa própria natureza.(…)

vida
Varial


(…)frequentemente hesitamos em deixá-la entrar a alegria, pois antes queremos saber se temos motivos suficientes para estarmos contentes; ou porque receamos ser atrapalhados por ela quando estamos envolvidos em deliberações sérias e cuidados importantes.(…)

alegria
Varial

(…)Porque, por mais tempo que se viva, não se possui nada mais que o presente indivisível; porém a lembrança perde a cada dia pelo esquecimento mais do que ganha com o acréscimo. Quanto mais se avança em idade, mais insignificantes nos parecem as coisas humanas, por maiores que sejam; a vida que, durante a juventude, estava ali ante nós, firme e imóvel, nos parece agora uma sucessão rápida de fenômenos efêmeros; e se compreende o vazio e o nada das coisas deste mundo.
A diferença fundamental entre a juventude e a velhice sempre será que a primeira tem a vida em perspectiva, e a segunda, a morte; que, por conseguinte, uma possui um passado curto com um longo futuro, enquanto a outra possui o contrário.(…)

vida
Varial



Fonte: Aforismos para a Sabedoria da Vida
Autor: Arthur Schopenhauer
Tradução: André Díspore Cancian
Original: Parerga und Paralipomena (Aphorismen zur Lebensweisheit)


Liberdade para sonhar

Estou lendo “O Livro do Desassossego” de Fernando Pessoa. Este livro é uma reflexão sobre a vida. Não há uma frase se quer, que não nos leve a refletir sobre as ações da nossa própria vida. Um trecho logo no ínicio, chamou minha atenção:
“(…) Tenho que escolher o que detesto – ou o sonho que minha inteligência odeia, ou a ação, que a minha sensibilidade repugna; ou a ação para que não nasci, ou o sonho, para que ninguém nasceu. (…)” 

kush
Vladimir Kush

Acho que também sofro desta dúvida, mas não sei se posso concordar que ninguém nasceu para sonhar… e no fundo acho que nem o próprio Fernando Pessoa concordava. No breve espaço entre nascer e morrer, acho que nossa única bagagem são os nossos sonhos.
bagagem
Vladimir Kush

Entre a dureza da realidade, que nos esmaga a esperança, sonhar nos dá a possibilidade de carregar as baterias, nos encoraja a continuar tentando. Triste de quem abandona os próprios sonhos, diante dos desencantamentos do caminho.

Como disse Satre, “Determinado rochedo, que demonstra profunda resistência se pretendo removê-lo, será, ao contrário, preciosa ajuda se quero escalá-lo para contemplar a paisagem.”
Assim nesse universo de contradições, que é nossa existência, escolher entre agir e sonhar, significa, não apenas, o modo como iremos escrever nossa história, mas como ela será lida depois.

drfranken
DrFranken
Aqueles que optaram por sonhar e agir, foram aqueles que entraram para a história da humanidade. Tornaram-se heróis e exemplos. Escreveram sua história para servir de guia e inspiração para outros. Como cada dia, raros são os heróis que surgem, parece que o mundo e nós mesmos, perdemos a liberdade de escolher e realizar. Também passamos a responsabilizar o tempo e o vento pelas mudanças e fracassos. 
Esse argumento sobre a liberdade que não temos, refere-se a nossa impotência diante da vontade de mudar. Mas, parece que somos fracos diante da nossa própria realidade. Não nos sentimos livres, porque nossa história parece  já ser escrita, com todas as adversidades incluídas. Usamos  essa sensação como desculpa para nossa impotência, justificando não dominar nem nossos apetites mais insignificantes ou nossos hábitos. 

Embora, tudo leve a crer que algo em nossa vida, parece previsto, isto não justifica, viver à margem dela. Ainda segundo Satre, o rochedo fica à espera de ser considerado adversário ou auxiliar, e mesmo que haja a necessidade de picaretas e ganchos para escalá-lo, e mesmo que seja muito dificil, ou que se chegue a conclusão de que não é possível escalá-lo, isso tudo nos prova que temos sim, liberdade para avaliar e escolher como agir. 
A capacidade de avaliar e escolher é o que diferencia aqueles que conquistam seus propósitos. É preciso afirmar e contradizer os livros de autoajuda ou a física quântica:  mesmo que sigam à risca os passos para o sucesso,  nem todos o alcançarão. Haja vista que, o sucesso só é especial, por pertencer a poucos.  O importante é sonhar e agir em prol da cura de nós mesmos, tornando importante a nossa existência para aqueles que com ela cruzarem. E como escreveu Fernando Pessoa, que me inspirou nessa viagem filosófica: “Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, um dia relido por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também.

Ver e sentir para entender

Fui convidada para dar aulas de Arte na escola dos meus filhos. Fiquei muito feliz e empolgada, pois terei a oportunidade de tentar transmitir o amor que sinto pela Arte.
van_gogh
Van Gogh
Infelizmente, toda a nossa cultura atual nos distancia da vivência artística. O que é oferecido nas escolas, não dá a oportunidade para as crianças absorverem  a mensagem que a Arte nos traz.
Quando falamos em Arte, o que vem à cabeça são pinturas caras, nem sempre bonitas ou objetos de decoração raras vezes úteis. O assunto é tido como supérfluo e distante da nossa realidade, mas a verdade é que a Arte está inserida em nossas vidas mais do que imaginamos. Há um preconceito em relação a ela. Muitos afirmam não entendê-la e portanto não  a apreciam. Outros dizem que até acham bacana, mas não têm opinião porque não conhecem.

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