>O babado alheio

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Enquanto aguardavam a consulta na recepção, Fulana e Beltrana falavam  sobre a vida da Sicrana. A primeira contava em tom indignado que a última estava traindo o marido. A segunda exclamava surpresa e revolta, que já tinha notado que Sicrana tinha cara de safada. E as duas concluíram, que a terceira era adúltera e burra, pois trocara um marido fiel e dedicado pelo pecado da luxúria. Em alguns minutos de uma conversa animada, que hora soava como comédia, hora como drama, um julgamento foi feito e o veredito foi dado: Sicrana é uma pecadora, o marido traído um coitado e o amante um aproveitador.

culpa
The White Light – Guilt

Ao mesmo tempo que eu ficava a par da vida sexual da Sicrana, folheava uma revista de moda, que anunciava a volta do babado. E conclui: o babado nunca sai de moda! As revistas sabem disso. O ser humano adora saber o que se passa na casa do vizinho. Ama uma boa fofoca. Uma curiosidade quase mórbida para saber se o outro também comete os mesmos pecados que ele mesmo comete. E quem não gosta de ouvir um babado forte??? Quem acredita que são dignos de punição apenas aqueles que gostam de passar a noticia para frente, na maioria das vezes, distorcendo fatos, engana-se. Como produto de um crime, quem aceita, torna-se cúmplice. A mesma fúria que dedicamos ao condenar os enganos dos outros, receberemos em relação aos nossos. E tal qual Fulana e Beltrana, eu cometo o mesmo erro ao julgá-las duas fofoqueiras intrometidas. Tornei-me cúmplice, mantive as orelhas bem dispostas para ouvir os detalhes sórdidos.

“Os ausentes nunca têm razão.”
Phillippe Destouches


Qualquer um comete erros. Mas, os erros dos outros são muito piores que os nossos! Qualquer um tem os seus motivos para o engano. Mas, os motivos dos outros não se justificam. Ainda assim,  respeitamos muito mais aquilo que  possam pensar de nós do que por aquilo que pensamos a nosso próprio respeito. O principal objetivo do fofoqueiro é melhorar a sua própria imagem ao apontar os defeitos dos outros. Alguns são inseguros incondicionais outros são malvados mesmo.


julgar


“O que guarda a sua boca e a sua língua guarda a sua alma das angústias.” (Provérbios 21:23)

Os mexeriqueiros não perdem a oportunidade de maldizer a vida alheira. Porém, enchem-se de indignação quando tornam-se vítimas das línguas felinas. Nunca pensam, que da mesma maneira, que deferem golpes verbais contra alguém, em outro canto, outro alguém defere os mesmos golpes contra eles. Acreditam não cometer enganos, ou se cometem, ninguém os vê. Raras são as pessoas que resistem a maledicência. Muitos até se policiam, evitam emitir opiniões sobre o comportamento do outro. Podem passar um vida inteira se calando, mas na única vez que cairem na tentação, não serão reconhecidos por terem sido indulgentes a vida toda. Esse único erro pode acarretar arrependimentos eternos.

“Devido ao homem ter tendência para ser parcial para com aqueles a quem ama, injusto para com aqueles a quem odeia, servil para com os seus superiores, arrogante para com os seus inferiores, cruel ou indulgente para com os que estão na miséria ou na desgraça, é que se torna tão difícil encontrar alguém capaz de exercer um julgamento perfeito sobre as qualidades dos outros. ” Confúcio


fofoca
Que sabem Fulana e Beltrana da vida de Sicrana? E mesmos que sejam íntimas, amigas preocupadas com o seu futuro incerto, não podem julgar e condenar a escolha de Sicrana. O drama desta só é conhecido por ela mesma. O que aos olhos pode ser errado, para quem infeliz vive pode ser o bálsamo. E mesmo que o ato seja mal visto por muitos, as razões que levam  a cometê-lo, estão  somente entre as paredes do cotidiano de cada um.


“Não julgues. A vida é um mistério, cada um obedece a leis diferentes. Conheces porventura a força das coisas que os conduziram, os sofrimentos e os desejos que cavaram o seu caminho? Supreendestes porventura a voz da sua consciência a revelar-lhes em voz baixa o segredo do seu destino? Não julgues; olha o lago puro e a água tranquila onde vêm quebrar-se as mil vagas que varrem o universo… É preciso que aconteça tudo aquilo que vês.
Todas as ondas do oceano são precisas para levar ao porto o navio da verdade. Acredita na eficácia da morte do que queres para participares do triunfo do que deve ser. ”
Jeanne Vietinghoff

Fonte: Citador
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