>O dedo mindinho do Newton

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Presa no trânsito de SP, sem ter o que fazer, reparei no meu dedo mindinho. Comecei a analisá-lo e notei que nunca tinha percebido o seu formato. Afastei dos demais dedos e eis que me pareceu uma parte desconhecida de mim. Algo que sempre esteve aqui, faz parte do conjunto, mas nunca foi percebido como único.
dali

Como ando tropeçando no liso há algum tempo, dessa verdadeira viagem na maionese, cogitei que talvez, minhas ações ou pensamentos, opiniões ou atitudes, certamente as mesmas, há muito tempo, podem ser tão estranhas para mim, como meu abandonado dedo mindinho, se eu for analisá-las, assim, fria e isoladamente.

Como qualquer ser humano, estou em busca do auto conhecimento, mas como qualquer um de nós, não gosto nadinha de concluir, que tenho mais defeitos do que virtudes. Como é dificil admitir que estamos errados. Então, inconscientemente e para nos auto-preservar, tratamos logo de culpar alguém ou a situação pela maneira como agimos ou pela dor que nos persegue.

negar
Aliás, o inconsciente é nossa parte mais atraente e poderosa. É lá que estão escondidos as verdadeiras aspirações da nossa vida. Há muito tempo é foco de estudos e teorias, berço da fé e do misticismo. Segundo Jung, quando o mundo externo entra em colapso, nos voltamos para dentro de nós mesmos em busca de algo que nos dê segurança. (…) Muitos ainda procuram fora de si mesmos; uns acreditam na ilusão da vitória e do poder; outros, em tratados e decretos; outros, ainda, na destruição da ordem vigente. Mas são poucos os que buscam dentro de si, poucos os que se perguntam se não seriam mais úteis à sociedade humana se cada qual começasse por si, se não seria melhor, em vez de exigir dos outros, pôr à prova primeiro em sua própria pessoa, em seu foro interior, a suspensão da ordem vigente, as leis e vitórias que apregoam em praça pública. É indispensável que em cada indivíduo se produza um desmoronamento, uma divisão interior, que se dissolva o que existe e se faça uma renovação renovação, mas sem impô-la ao próximo sob o manto farisaico do amor cristão ou do senso da responsabilidade social — ou o que quer que seja usado para disfarçar as necessidades pessoais e inconscientes de poder. O autoconhecimento de cada indivíduo, a volta do ser humano às suas origens, ao seu próprio ser e à sua verdade individual e social, eis o começo da cura da cegueira que domina o mundo de hoje.(…) 
O fato é que eu achava que tinha certeza. Agora já não sei mais. Se algo externo, exposto e à altura dos meus olhos, como meu pequeno dedo, é negligenciado pela minha observação, sem sombra de dúvida, muitos sentimentos e atitudes, que podia crer serem corretas ou justas, podem na verdade, serem ineficientes para a busca do meu auto conhecimento e da felicidade geral da nação… E como descobrir tudo isso? Tirando os olhos do mindinho e tentando ouvir o que os outros pensam sobre nós.  Se você perguntar, compreensivelmente mentirão (ou não!). Mas, se observarmos com um pouco mais de atenção, podemos constatar que ser egoísta é inerente ao ser. Não adianta negar nossa origem animal, que não está nem ai com o sofrimento alheio. Somos bichos domesticados pela sociedade e pelos valores impostos por ela. Negar é a primeira lição. A segunda é  culpar o outro. 
culpar
O egoísmo enraizado no nosso inconsciente nos impede de admitir, principalmente publicamente, que talvez a culpa seja nossa, pelos infortúnios da nossa própria vida. Embora, seja provado cientificamente pelas leis da física, que  quando um não quer, dois não brigam, ainda assim negamos nossa participação.  “Terceira Lei de Newton: a força é a expressão física para a interação entre dois entes físicos [ou entre duas partes de um mesmo ente], definindo então a direção, o sentido e a igualdade dos módulos das forças de um par ação-reação)” A Terceira Lei pode ser assim enunciada: se um corpo “A” aplicar uma força sobre um corpo “B”, este último aplicará sobre “A” outra força da mesma intensidade e mesma direção, mas no sentido contrário.”
Ou seja, se você deu, irá receber na mesma proporção. É ação e reação. Equação tão simples, que reprova e deixa muita gente de recuperação na escola e na vida!


Fonte: Essa vida louca, Wikipedia  e “Psicologia do Inconsciente” – Carl Gustav Jung

>A invenção da Mentira

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Imagine um mundo onde as pessoas são sinceras.  Uma sinceridade extrema, onde elas dizem o que realmente pensam ou sentem, sem o menor constrangimento, com toda grosseria da verdade mais cruel. Imagine um mundo onde ninguém soubesse o que é a mentira, nem se quer conhecem esse nome. Um lugar onde não exista hipocrisia, meias palavras, ilusão ou fantasia. Esse é o mundo do filme A invenção da Mentira”, do diretor Mattew Robinson.
Comecei a assistir pensando ser uma comédia daquela bem hilária, mas acabei me deparando com um filme sensacional e inteligente, daqueles que nos fazem pensar, refletir sobre nossa vida, a vida dos outros e nossa interação.
Entre algumas risadas há momentos em que senti um nó na garganta, uma certa melancolia. É inevitável não sentir algum constrangimento diante de tanta sinceridade, muito embora os personagens não se sintam assim, a não ser o protagonista Mark, que sem saber porquê, não se sente feliz com essa realidade tão extrema.

No mundo criado e protagonizado pelo comediante inglês  Rick Gervais, não existem mentiras nem ilusões, também não existem filmes, nem tão pouco religião. As pessoas não sabem mentir, não são capazes de criar,  abstrair ou  imaginar qualquer outra situação, senão aquela que é como é, sem reflexões.
Mark é um roterista da Lecture Films,produtora de filmes, cujos roteiros são simples descrições de fatos históricos, exatamente da forma como ocorreram, sem cenas ou algum tipo de representação, apenas com a leitura desses fatos. Considerado um fracassado, além de feio e gordo, Mark é demitido do emprego e leva um fora daqueles de uma linda mulher (Jennifer Garner) por quem ele é loucamente apaixonado. Em meio ao fracasso de sua vida, Mark descobre que pode mentir, imaginar outra realidade, e torna-se o homem mais poderoso do mundo. Todos acreditam no que ele inventa, apenas por ele dizer, mesmo sendo o maior absurdo (para nós), já que nesse mundo, não existem suposições, tudo que é dito é o que é.
E se já não bastasse tantos motivos para reflexão sobre verdade e sinceridade, o filme ainda fala sobre o que é preciso para ser feliz de fato. O equilíbrio entre amor, dinheiro e amizade.
Um mundo onde as fraquezas são totalmente expostas e reconhecidas, sem sonhos, sem criatividade, sem fé, regido pela aparência e posição social. Acho que Rick Gervais fez uma analogia, uma representação de um mundo interior. Todos os personagens possuem uma personalidade única, que somados compõe um único ser. Um egocêntrico, um inseguro, um feio, um bonito, um alienado, um agressivo, um esperançoso, mas carente. É a soma de todos os nossos sentimentos e medos, personagens vivos dentro de nós, que atuam em determinados momentos da nossa vida. Buscam algo, mas não sabem o que é. Conhecem o seus defeitos e limitações, sabem que precisam mudar, agir de maneira diferente, mas não o fazem, muitas vezes porque o orgulho não permite, nem sempre se incomodam com isso ou fingem não se incomodar. Vacilam diante do que realmente querem e do que lhe é imposto pelos outros, na maioria das vezes, cedendo ao que a maioria acredita. A maioria nem sabe o que quer.
Depois de um tempo, já não sei se o filme defende ou condena a mentira. Ao meu ver, a grande moral é que sem sensibilidade, imaginação, otimismo, gentilezas e cordialidades, não poderíamos ter evoluído como sociedade, ou até poderiamos, mas como no filme, seriamos uma legião de pessoas vazias, incompletas, perdidas e insatisfeitas, submersos num cotidiano de coisas fúteis, sem valor.
As vezes me pergunto se já não vivemos nesse mundo ou se já não estamos caminhando para ele. Como disse Luís Fernando Veríssimo: “Embaixo do oceano há um deserto.”

>Os sonhos que nos movem

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A televisão brasileira está comemorando 60 anos. Desde sua criação, tornou-se a principal fonte de informação e entretenimento do brasileiro. 
televisao
Alex Cherry

Muita gente critica a alienação que ela causa nas pessoas, mas  justamente pelo poder de hipnotizar nossas emoções, que a televisão tornou-se um item de primeira necessidade.

Que a tv elege presidentes, a gente já sabe. Mas, é verdade que uma criança, um adolescente ou até mesmo um adulto podem ser influenciados por uma novela, programa ou filme?

imaginacao
Archan Nair
Eu li um texto escrito pelo Doutor e Mestre em Direito da USP, Antonio Jorge Pereira Jr., na excelente Revista Ser Família do Instituto de mesmo nome, vendida  pela rede de farmácias Drogasil em prol da entidade Obra do Berço. O texto intitulado “Imaginação, imagem e ação”, trata da influência da televisão, do cinema e da literatura na vida das pessoas.
sonhar
Archan Nair
Já comentei em outros posts sobre a carência de imaginação nas crianças (nos adultos também!) e seu efeito nocivo para o futuro. Através do imaginar, é que colocamos os maiores planos da nossa vida em prática. Quando a imaginação é limitada, os recursos para uma vida plena e satisfatória ficam escassos, já que a capacidade de visualizar nossas metas fica prejudicada. Segundo o filósofo espanhol Leonardo Pólo, a imaginação condiciona a ação da inteligência e da vontade. Sendo precária a capacidade de criar as imagens, que nos despertam a vontade e a força para torná-las reais, fatalmente tornaremos nossa vida frustrante e sem sentido.
imaginar
Archan Nair
A imaginação é alimentada por imagens, literatura, experiências e sons. Vários estudos apontam, que a imagem de felicidade, que chega até os jovens está associada a comportamentos egoístas e relacionamentos superficiais. Uma visão distorcida da justiça, do certo e do errado, do respeito a si próprio e pelo próximo.
Sendo assim, quem imagina que possa haver apenas relações fugazes, não será capaz de projetar relações diferentes. Imaginar tem haver com a esperança e a expectativa, pois ela antecipa a ação. Os estudos concluíram que o conjunto de imagens de condutas humanas, especialmente associado a algum prazer, facilita a predisposição ao comportamento visto. Não fosse assim, a publicidade não se justificaria. 
influencia
Archan Nair
Algumas pessoas relutam a afirmar, que os recentes desenhos e jogos violentos possam influenciar as crianças negativamente, alegando que os desenhos antigos, como Tom e Jerry, Pica-Pau ou Papa-léguas eram mais violentos que os de hoje e nada daquilo era imitado. Porém, vale ressaltar que,  esses desenhos representavam animais, humanos não apareciam, portanto as crianças não faziam associação das imagens  com o comportamento, pelo simples fato de não se reconhecerem nos personagens. 
escolha
Archan Nair
Existem pessoas que passam uma vida inteira sem nada realizar, mas satisfeitas apenas pelas projeções da sua imaginação, geradas pelas histórias em livros, em filmes ou novelas que ela lê ou assiste. Acredito que o ser humano criou as artes, para suprir a necessidade sem limites dos nossos sentimentos, que se realmente concretizados, poderiam trazer consequências desagradáveis ou até trágicas. Todas as imagens criadas ou assistidas são guardadas dentro de nós. Quando passamos por alguma experiência parecida na vida real, resgatamos essas imagens e as emoções antes despertadas. Quando se povoam a memória com imagens de traição, sensualidade, egoísmo e  violência criam-se modelos deturpados da realidade. Assim, a capacidade de sonhar mais alto fica prejudicada pela ausência de bons exemplos, de valores e bons critérios.
Alimentar os bons sonhos é alimentar a realidade.
agir
Archan Nair
Não há dúvida que a televisão influencia nossas atitudes e pensamentos. As crianças e os jovens são mais sensíveis a essa exposição. Cabe aos pais filtrarem as imagens, que seus filhos recebem, não apenas pela tv, mas pelos jogos, pelos livros, pela música e também por eles mesmos, através de suas ações. Afinal, não adianta nada desligar a televisão e fazer a criança presenciar um verdadeiro show de horrores ao vivo! Não é fácil, mas os bons exemplos começam em casa. Quem adquire bom senso, aprende a não mais absorver os maus exemplos da tv, do cinema e do mundo.  Mesmo assim, alimentar bem nossa imaginação e a  nossos filhos  garantirá uma vida plena e feliz. A natureza dos sonhos que nos movem denuncia a trajetória que estamos a percorrer.
 Fonte: Revista Ser Família Edição 21 / Imagens: Do talentoso ilustrador indiano Archan Nair e  do excelente americano Alex Cherry

O tormento do tempo

Quando eu era criança, o tempo era um tormento. Ele custava a passar. O intervalo entre a noite e o dia, que me separava das brincadeiras na rua, parecia levar um século para passar. Passei várias noites, olhando para o relógio, que ao invés de minutos, contava em dias.
tempo
Claire Pacheco

AH! OS RELÓGIOS

Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios…

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida – a verdadeira –
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém – ao voltar a si da vida –
acaso lhes indaga que horas são…
Mario Quintana – A Cor do Invisível

Agora, porém, esse mesmo tempo anda com pressa. O que preciso fazer não cabem nas breves horas de um dia. Dizem que quem não sabe aproveitar o seu tempo, são os primeiros a queixar-se da sua brevidade. Definitivamente, eu não sei aproveitar o meu. São tantos afazeres, tantas cobranças, tantos planos, que é impossível organizá-los. Não somente por falta de planejamento, mas porque passei a me incomodar com a passagem das horas, que dão o desespero de uma contagem regressiva. Não há tempo que baste para fazer o que nos aborrece!
horas
Claire Pacheco
“A vaidade faz-nos olhar para o tempo, que passou, com indiferença, porque já nele fica sem ação; faz-nos ver o presente com desprezo, porque nunca vive satisfeita; e faz-nos contemplar o futuro com esperança, porque sempre se funda no que há de vir; e assim só estimamos o que já não temos; fazemos pouco caso do que possuímos; e cuidamos no que não sabemos se teremos.”
Matias Aires, in ‘Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens e Carta Sobre a Fortuna’
segundos
Claire Pacheco
Na infância, nosso corpo e nossa mente passam o tempo todo fervilhando com tantas descobertas. As horas passam depressa, mas os anos parecem décadas. Temos tantas lembranças, que não condizem com os breves anos da infância. Cada vez que refletimos sobre as experiências de criança, novas descobertas se apresentam. Cada época da nossa vida, parece ser proporcional às reflexões, que dela temos. Na maturidade, a velocidade das descobertas é substituída pela morosidade das lembranças, onde as horas parecem dias, mas os anos passam como semanas.
O despertador desperta,
acorda com sono e medo;
por que a noite é tão curta
e fica tarde tão cedo?
Millôr Fernandes, in “Pif-Paf”
minutos
Claire Pacheco
Quando estamos engajados em produzir algo, passamos a perceber o tempo, tentando em vão superá-lo. Quando vivemos uma vida medíocre e tediosa, sem planos ou realizações, o correr das horas não incomoda. Quem não valoriza o breve tempo da vida, não se importa em gastá-lo com futilidades. O tempo de cada um de nós é único. Embora, todos compartilhem da mesma medida de tempo, ele passará de maneira diferente para cada ser.
vida
Claire Pacheco
Frequentemente, nos queixamos do presente, o passado se tornou um saudoso instante e olhamos para o futuro com esperança de algo distante. O fato é que temos o tempo suficiente para realizar aquilo que fomos destinados a fazer. Como disse Oscar Wilde : “O objetivo da vida é o desenvolvimento próprio, a total percepção da própria natureza, é para isso que cada um de nós veio ao mundo.” Portanto, será inteiramente feliz e cumprirá a sua missão, aquele que utilizar o tempo para aprimorar a si mesmo.
filosofia
Claire Pacheco
“Agimos sempre no sentido do destino. As duas coisas formam uma só.
Quem se engana é porque ainda não compreende o seu destino. Quer dizer, não compreende qual a resultante de todo o seu passado – o qual lhe indica o futuro. Mas quer o compreenda ou não, indica-lhe à mesma. Cada vida é aquilo que devia ser.” Cesare Pavese, in ‘O Ofício de Viver’
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